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Crianças milagrosas: hagiografia medieval e imperfeição infantil

Crianças milagrosas: hagiografia medieval e imperfeição infantil

Crianças milagrosas: hagiografia medieval e imperfeição infantil

Por Anne E. Bailey

The Journal of Interdisciplinary History, Vol.47: 3 (2017)

Resumo: Abordagens da história social, da antropologia médica e da história das emoções podem auxiliar na compreensão de crianças doentes e com deficiência física conforme apareciam nas histórias de milagres da Inglaterra medieval. Uma análise dos significados médicos e religiosos atribuídos aos defeitos corporais na Idade Média descobre que os hagiógrafos aproveitaram as emoções evocadas pelas doenças infantis para criar um conceito distintamente cristão da imperfeição infantil.

Introdução: Narrativas de milagres medievais, escritas para promover as atividades milagrosas póstumas de santos em seus santuários, documentam as histórias de peregrinos em busca de ajuda intercessora. Eles contêm muito interesse para historiadores sociais, historiadores da medicina medieval e estudiosos que pesquisam a história das emoções. Aqueles que apresentam crianças são um testemunho de como a infância era menos do que perfeita na Idade Média; a imperfeição costumava ser grande em corpos pequenos, na forma de doenças e incapacidades incapacitantes. Embora os historiadores da infância e da medicina tenham feito uso de histórias de milagres, eles deram pouca atenção ao contexto hagiográfico que informava as descrições das crianças nesses textos, ou à função narrativa dos jovens protagonistas.

Como Finucane em seu influente O resgate dos inocentes, muitos historiadores sociais tratam principalmente as histórias de milagres sobre crianças como “registros de milagres” e “registros do lado do santuário”, dando consideração insuficiente ao seu discurso religioso subjacente. Embora as abordagens sócio-históricas e médicas das narrativas de milagres produzam uma riqueza de informações sobre a vida e a saúde das crianças na Idade Média, muitas vezes elas deixam de considerar totalmente a natureza do meio através do qual esse detalhe é transmitido.

O objetivo deste artigo é fazer uma abordagem menos convencional e mais interdisciplinar da doença infantil nas histórias de milagres, lendo as fontes não apenas como documentos históricos simples, mas também como textos literários de inspiração religiosa. Combinando análise literária com abordagens da história social e da antropologia médica, o artigo adota a postura de que infância e imperfeição são conceitos construídos culturalmente. A partir dessa perspectiva, ele examina as maneiras pelas quais as histórias de milagres se basearam em idéias morais e religiosas contemporâneas sobre crianças para criar um discurso emocionalmente atraente que serviu a uma agenda hagiográfica tradicional, bem como refletiu a mudança de atitudes em relação às crianças na Europa do século XII.


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